1
Era tarde. Já passavam das duas da manhã quando de
repente, como na noite passada, o telefone começou a tocar sobre a estante
da sala. Desde o primeiro toque eu me recusara a atender mais uma vez aquele
telefonema, pois já era o terceiro dia seguido que alguém me tirava o sono
no meio da madrugada. Mas uma ligação à uma hora daquelas, caso não fosse
engano, poderia ser más notícias.
Na verdade eu deveria ter feito como uma velha amiga,
que desligava o telefone da tomada todas as noites antes de dormir. E como
ela mesma dizia, se algum idiota estivesse tentando passar aquela conversa
de trote na madrugada, perderia seu tempo. E se fosse enfim, más notícias,
também não se importaria. Teria uma bela noite de sono, tomaria seu café da
manhã e só depois de um belo banho, saberia que seus únicos parentes haviam
morrido minutos depois de ter desligado o aparelho. — Coisas da vida. — Pelo
menos teria uma bela noite de sono para enfrentar os preparativos do
enterro.
Mas infelizmente eu não havia feito como ela. Então,
teria que encarar, qualquer que fosse a notícia. Meus parentes mortos ou uma
simples piada de fim de noite. Não importava. Eu tinha que atender aos
malditos chamados do velho telefone Standard. E tinha que ser àquela hora da
madrugada.
Embora minha cabeça, ainda que torturada pelo velho
Standard, me mandasse levantar e correr até a sala para xingar uns palavrões
via satélite, meu corpo permanecia estático, esticado sobre o colchão. Meus
olhos trêmulos e embaçados miravam o fulgor de um faixo de luz que escapava
frouxo por debaixo da porta do quarto. Aquele era meu único referencial até
o corredor. E naquela ocasião, eu não podia simplesmente me dar ao luxo de
jogar o travesseiro sobre a fresta para me livrar do clarão como sempre
fazia.
Precisei respirar fundo, tão fundo como se me
preparasse para saltar sobre um mar revolto. Eu podia ouvir nitidamente o
som voraz da água batendo sobre as pedras e o grito forte e agudo dos
pássaros. Eu estava lá, onde costumávamos esticar as varas. E não estava
sozinho. Pairava estranhamente com minha cama sobre a água agitada, enquanto
sobre as rochas, onde antes costumava pescar com meu pai, estava minha mãe.
Ela me acenava com a mão, me pedia para que não saltasse sobre aquela água.
Seu cabelo esvoaçava com o vento e revelava uma mancha escura em sua testa.
Movimentei alguns músculos do corpo para me aquecer.
Girei o pescoço de um lado para o outro até ouvir um duplo estalo dos ossos.
A princípio tentei não me preocupar com a temperatura da água e saltei de
encontro aquele grande mar de ardósia gelada. Senti um calafrio estranho
percorrer meu corpo quando toquei os pés no chão. Apesar do calor que fazia
naquela noite, ele estava congelando.
Ainda preso àquele pensamento estúpido, tentei
inutilmente apagar a mancha escura que pairava sobre a testa de minha mãe.
Mas quando o fiz, ela pegou minha mão e a segurando com firmeza, fez que não
com o a cabeça. Aquilo me assustou. Aliás, ela sempre me assustava. Quando
falava e — pior ainda — quando não falava. Porém, o que mais me apavorava
era o seu dom de sentir as coisas. Principalmente as que não aconteciam ao
seu redor. Como daquela vez em que — Eu ainda sinto tanto por ele... —
sentir enjôos — Como se a culpa fosse minha... — parecia ser — E não era? —
a pior coisa do mundo.
2
Todos nós já desconfiávamos... mas tínhamos que ter
certeza. Então, marcamos um encontro lá em casa para ver se minha mãe diria
alguma coisa sobre o assunto.
A conversa seguiu tranqüila durante toda à tarde.
Tudo normal... como não tinha que ser. Aquilo me encucara. Minha mãe não
abrira a boca para falar nada. Nem mesmo uma única palavra sobre a menina ou
seus enjôos constantes.
Nos despedimos rapidamente. Ela decepcionada. Eu...
preocupado.
Voltei para dentro de casa com aquela merda na cabeça.
Tentei me conter até o fim da tarde, mas nunca gostei de guardar coisas em
baús.
— Mãe... A senhora não notou nada de errado com ela?
— Eu sei que vocês queriam que eu falasse. Mas ela
tava tão feliz que eu preferi não dizer nada a respeito do...
O telefone disparou num toque alto e estridente na
sala.
— Diz pra ela que eu sinto muito.
— O quê?
O telefone gritou mais uma vez.
— Pra mãe da sua amiga. Eu acho que é ela no telefone.
Corri da cozinha para a sala em passos
desgraçadamente largos. As pernas estavam bambas, dormentes de medo. Pelo
menos eram assim que costumavam ficar quando eu estava bem próximo de coisas
ruins. O mais estranho era que nem mesmo havia atendido ao telefone. Pedi a
Deus para que minha mãe estivesse errada. Que fosse apenas algo mal
interpretado. Mas meu dia acabou naquele telefonema. Tivemos finalmente a
confirmação sobre a gravidez. Da pior maneira possível.
Era uma coisa cruel. Descobrir que havia servido de
depósito para uma vida que não haviam lhe dado. — Emprestado talvez. — E
seja lá quem fosse o depositante, estava querendo de volta... Na verdade, já
havia feito o saque. Havia lhe retirado das entranhas, uma porção
considerável de vida — digo — não de sua vida própria vida. Mas de uma
outra, que com o tempo, iria lhe fazer muita falta.
Pensar em quem poderia estar por trás de algo tão
terrível... — Era o que eu deveria ter feito. — Mas eu não me importava
muito naquele momento. Para mim, era só mais uma história que o toque
infernal do velho Standard estava desenterrando.
3
A luz esbranquiçada que vazava por baixo da porta, já
não era mais o meu único referencial. Percebi que outras fontes luminosas
também estavam presentes no quarto. — É o que acontece quando ficamos alguns
minutos com os olhos fechados. O escuro se esconde e dá espaço a algum tipo
de penumbra... assustadora.
O telefone continuava a tocar — como teria sido uma
ótima idéia se eu tivesse instalado uma extensão no quarto, ao lado da cama
— insistentemente.
Fui cambaleando sobre o chão frio até chegar perto do
interruptor da luz. Pensei em liga-la, mas acabei não o fazendo. Comecei a
imaginar os efeitos catastróficos que acarretariam sobre minha enxaqueca se
eu arriscasse a explodir aquela bomba atômica dentro do quarto.
Até então eu não havia me dado conta de quantos
toques um maldito telefone podia produzir — eu não sei quanto aos outros,
mas aquele, poderia tocar eternamente — e o quanto eles podiam te
irritar.
— Foda-se! — Gritei. — Ele poderia tocar eternamente,
mas eu não precisava atende-lo. Então, me virei e voltei a caminhar de
encontro à cama. — Lá sim era meu lugar... E não ali, parado de frente para
o corredor imaginando coisas que eu não precisava imaginar. —Tentei
inutilmente apagar a mancha escura que pairava sobre a testa de minha mãe.
— De todas as coisas que havia pensado naquela noite, aquela mancha era sem
dúvida a que mais me assustava. Por que estava lá? Será que eu estava
começado a ter premoni... Não, eu não acreditava que aquilo fosse como uma
dermatite ou qualquer outra anomalia da minha herança genética.
Por fim, voltei para a cama e me cobri com quase tudo
que deixara espalhado sobre ela. Coloquei o travesseiro sobre a cabeça e
esperei o fim daqueles toques... Mas eles ainda continuaram. Tocaram por
mais duas ou três vezes e então pararam. Uma sensação de alívio, acompanhada
de curiosidade, tomou conta do mim. Finalmente eu havia me livrado daquela
chamada insistente. Mas por outro lado, eu esperava que o maldito tocasse
novamente, para que eu pudesse atende-lo e colocar um ponto final naquela
história. É muito estranho quando estamos enfurnados nesse tipo de situação.
Não queremos mais que uma coisa aconteça, e quando finalmente essa coisa
deixa de acontecer, sentimos saudades e novamente queremos que ela volte a
acontecer. — O ser humano é assim mesmo... Nunca está satisfeito com nada. —
Mas se não fosse assim, estaríamos morando em cavernas até hoje.
4
Já eram quase três horas da manhã, quando o ele
voltou a tocar. Eu já sabia que isso iria acontecer, não por ter sido assim
nas outras noites, mas simplesmente por que sabia. Talvez por isso eu tenha
deixado a porta do quarto aberta. — Ou eu teria fechado? — Não importava.
Aquele som assustador e familiar ecoou mais uma vez pelo corredor, me
fazendo despertar novamente.
Abri os olhos e senti meu corpo trêmulo, como se
tivesse acabado de sair de uma cirurgia.
Dessa vez não perdi tempo com saltos imaginários.
Levantei-me impulsivamente e caminhei rápido até o telefone. Percebi que
tudo dentro de casa estava mais visível. Eram apenas três horas da manhã,
mas o dia parecia estar chegando. Talvez tenha sido o meu cochilo de quase
uma hora, — sabe como é, toda aquela bobagem de olhos fechados no escuro se
abrindo e bum! Sua visão se amplia... — mas algo me dizia que não.
De repente, o telefone parou de tocar. Tive vontade de
quebrar o desgraçado, espatifá-lo na parede, mas a curiosidade me segurava.
Dei-lhe as costas mais uma vez e fui caminhando até a cozinha. Estava quente
naquela noite, e minha garganta arranhava de sede. Abri a porta da geladeira
pretendendo tomar um copo dágua quando um velho conhecido me cutucou
novamente o ouvido. Era ele! Desafiando-me para mais uma... — Você
não vai deixar que ele te derrote assim, vai? — E sem que ele esperasse,
corri de volta para a sala e em num único lance, o atendi...
5
— Alô! — disse eu num tom de indignação.
Uma voz calma e feminina como só as telefonistas da
madrugada podem ter, respondeu-me do outro lado do aparelho.
— Boa noite. É da residência do senhor Sete?
— É... — disse eu, ainda indignado, mas um pouco
envergonhado com tanta educação.
— Com quem estou falando, por favor? — Perguntou a
telefonista.
— Com o Sete.
— Quer aguardar um minuto, por favor? Tenho uma
ligação para o senhor — disse ela desaparecendo pelos cabos telefônicos.
— Mas... — tentei encontra-la, mas foi inútil, já não
era mais ela quem estava comigo. Era alguém de quem jamais me esqueceria,
nem mesmo depois de morto.
Uma interferência invadiu a ligação. Um som distante e
agudo, como o de uma gravação barata, misturou-se a algum tipo de vibração
eletrônica. E uma respiração cansada foi ouvida do outro lado da linha.
O meu coração começou a acelerar. Senti um filete de
suor escorrer pelas têmporas. Eu estava ficando nervoso.
— Sete? — perguntou uma voz baixa e distante.
— Alô. Quem ta aí? — Disse eu, lembrando daquela
mancha negra na testa de minha mãe. — Aquilo realmente me perturbava.
A respiração continuou se arrastando no fundo da
ligação. Quando uma interferência maior surgiu de repente. O ruído aumentou
e diminuiu na mesma velocidade, como um telefone sem fio fora da base ou um
celular antigo procurando por um sinal melhor de antena. Aquele monologo me
consumia cada vez mais.
— Escuta aqui o babaca... — Meu medo naquele momento
foi dando espaço a indignação de ter sido perturbado todas aquelas noites. —
É melhor que não...
— Sete! — Exclamou a voz grunhindo por entre as
interferências.
— Quem ta ai? Que palhaçada é...
— Papai está com saudades... — disse a voz, seguida de
uma gargalhada macabra. Longa e seca.
Um calafrio percorreu minha coluna. Meu coração, antes
acelerado, agora disparava num ritmo alucinante. A testa, encharcada de
suor, contrastava com o seco da garganta que ardia por detrás das amídalas.
Um barulho forte, como o trancar de uma porta ao
vento, foi ouvido do outro lado da linha. Então, a ligação caiu e o som
comum ao de todas as noites sibilou mais uma vez.
Permaneci um tempo com o fone junto ao ouvido, como se
esperasse algum tipo de retorno daquela voz, que nem mesmo de longe e com
tantas interferências, parecia-se com a de meu pai. Mas aquilo me deixou de
certa forma preocupado. — Quem poderia estar fazendo esse tipo de
brincadeira? — Com certeza deveria ser alguém que me conhecia, pois ainda
nem mesmo havia passado o telefone para meu nome, o que descartava a
possibilidade de ter sido consultado na lista telefônica. Naquele momento,
tive uma idéia que não sei por que não havia tido antes. Pensei em ligar
para a Companhia Telefônica e descobrir o número daquelas chamadas, mas logo
a descartei. Era muito tarde. Iriam acabar pensando que era trote.
Coloquei o fone de volta sobre a base com a certeza de
que não seria mais perturbado por ele naquela noite. Olhei a geladeira ainda
com a porta entreaberta e imaginei como seria bom tomar um gole de alguma
coisa gelada.
O caminho da sala para a cozinha era pequeno, mas
mesmo assim o fiz lento, em velocidade de cruzeiro. Aquele telefonema
parecia ter esgotado com quase todas as minhas forças. E eu não pretendia
acabar com o resto que ainda tinha. Terminei de abrir a porta da geladeira e
fiquei alguns segundos recebendo aquela fumaça gelada que saia do
congelador. Demorei alguns segundos para escolher o que beber. Por fim,
fiquei entre a cerveja e a água — uma escolha difícil, já que as duas matam
a sede como ninguém — mas como eu já havia tido dor de cabeça demais naquela
noite, peguei a primeira jarra que vi e tomei um longo gole dàgua gelada.
Ela desceu rasgando pela minha garganta. Alguns filetes escorreram pelo
canto da boca alojando-se como um projétil perto do pescoço...
Sentada sobre uma velha cadeira de madeira, estava
minha mãe. Ela bordava uma toalha de rendas, daquelas que se coloca em baixo
de jarras ou algo parecido. Suas mãos estavam magras, tão ressecadas como
pés de galinha. Suas unhas compridas, sujas de terra, esbarravam nos dedos
finos e ossudos, e de vez em quando prendiam suas pontas quebradas na linha
que saia do novelo, emitindo um som assustador.
Ela não tinha mais aquela cara viva de sempre. Era
uma versão mais fúnebre, com a pele ressecada sobre os ossos — uma
pele escura, enegrecida nas extremidades — tão fina como papel. Não
era exatamente como um cadáver, mas com certeza era muito mais assustador.
Como uma sinfonia profana eu ouvia a mesma
respiração frouxa daquele telefonema.
Um buraco profundo e disforme cavado ao seu lado
lembrava uma grande cova feita à mão. No fundo, uma mão negra tentava se
erguer através da lama que ia enchendo o restante da cova.
Minha mãe agora observava tudo de fora da cadeira. Era uma coisa
assustadora vê-la ali de pé com aquele corpo curvado, tão ressecada como uma
velha arvore.
Eu me aproximei vagarosamente com o intuito de não
assusta-la, o que para mim naquele momento parecia algo muito perigoso. Ela
era semelhante a uma louca não medicada. Qualquer movimento em falso poderia
ser fatal.
Ela estava de costas para mim, e conforme fui me
aproximando ergueu suas mãos e às levou até o alto da cabeça emitindo um
grito de dor. Tentei acariciar suas costas, mas ela se virou e então aquilo
me amedrontou. Ela estava oca, como se estivesse vazia por dentro. Seus
olhos não existiam, sua boca aberta, estava sem dentes, sem língua.
— Sete ajuda a mamãe, por favor... — disse ela
começando a chorar pelos buracos vazios dos olhos.
Passei a mão pelo seu rosto ressecado e tentei
enxugar suas lágrimas, mas ela segurou minhas mãos e me puxou para junto da
cova. Sua força era assustadora.
— Volte para dentro da buceta da sua mãe seu filho
desnaturado! — Gritou ela, me puxando novamente.
Tentei lutar contra ela, mas minhas forças não
foram suficientes e ela me atirou para dentro da cova.