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CONTO: VISITANTE INDESEJÁVEL AUTOR: Marisa E. Yalenti [ rose_madder042000@yahoo.com.br ]
Yara estava realmente apertada para ir ao banheiro. Estacionou seu carro na garagem, abriu a porta e saiu praguejando contra a vontade insuportável de urinar, nem se importando em fechar a porta ou desligar o rádio que guinchava aos acordes alucinados da guitarra de Jimi Hendrix. Ela
e o marido estavam passando alguns dias em sua casa no lago, que fica em
uma região praticamente desabitada no interior do estado. Nessa época do
ano não havia movimento nenhum por perto, e ficaria assim por alguns
meses, até que chegasse a época das férias escolares, e era exatamente
isso o que eles estavam procurando quando decidiram passar uns dias na
casa do lago. Eles queriam uma espécie de segunda lua-de-mel. Ela
acabara de voltar do supermercado e achava que se demorasse mais um
segundo para ir ao banheiro não agüentaria e acabaria urinando nas calças.
A porta da sua casa parecia estar a anos luz de distância e ela correu
desajeitada, apertando as pernas. Se
não estivesse tão desesperada para ir ao banheiro, talvez tivesse notado
o detalhe um pouco inquietante: a porta da entrada não estava trancada.
Ao invés de reparar nisso, ela quase derrubou a porta ao entrar,
atravessou o hall de entrada em direção ao banheiro do andar de baixo,
que ficava depois da cozinha, nos fundos da casa. Parou
de repente porquê escutou um som estranho vindo da cozinha. Estava parada
no corredor, entre a sala de estar e a própria cozinha, a respiração
ofegante, a vontade de urinar cada vez mais insuportável. Sua calcinha já
estava úmida de gotas de urina que escaparam do seu controle, mas o medo
a manteve paralisada e atenta ao som que ouvia. Era
baixo e aterrorizante, mas era um som que ela conhecia muito bem. Era
o som de faca cortando carne. Ou melhor de faca "destrinchando"
carne. Conhecia esse som muito bem desde os seus 18 anos, porque seu
marido Tony era o açougueiro do bairro onde moravam. Mas
não podia ser ele na cozinha. Há poucas horas ele tinha saído para
pescar no lago, e quando ele saia para pescar, levando sua embalagem com
seis cervejas dentro de um isopor, ele só voltava ao anoitecer para o
jantar. Avançou
mais um pouco, o mais silenciosamente que conseguiu, apertando as pernas
para conter sua vontade de ir ao banheiro, e tentou ver do lugar onde se
encontrava se conseguia avistar quem estava na cozinha. Encostada no
batente da porta, ela se encolheu e conseguiu ver sem ser vista: era um
homem, completamente estranho. Ele estava de costas para a porta da
cozinha, debruçado sobre a mesa, na frente do que a princípio parecia
ser um boi inteiro nadando em sangue. As paredes, janelas e todos os
eletrodomésticos e demais utensílio da cozinha estavam encharcados de
sangue. O
homem se inclinou e enxugou a testa com a manga do paletó, um gesto
peculiar de quem esta suando e cansado do trabalho duro. O
medo que até então estava só esperando um empurrãozinho para começar
a dar sinal de vida se manifestou, porque agora que ele se inclinou ela pôde
ver que, afinal de contas aquilo na mesa sendo retalhado não era um boi.
Não, não era boi coisa nenhuma e sim uma pessoa, e estava usando botas
de cowboy, muito parecidas com o par que seu marido tinha, aquele que ela
lhe deu de presente no Natal passado e que ele sempre usava quando ia
pescar no lago. Sentiu
um líquido quente escorrer pelas pernas e um alívio repentino na bexiga,
e notou sem muito interesse que finalmente urinara nas calças. Mas
isso não era o mais importante agora. O importante mesmo era que esse
camarada que estava ali na sua cozinha, usando a faca Gynsu de seu marido
cortar carne, fazendo seja lá o que for com uma pessoa, e por favor meu
Deus, que essa pessoa não seja o Tony, não notasse que ela estava ali,
pelo menos até que ela chegasse ao seu carro na garagem e... Mas
no momento em que ela pensou em se virar cautelosamente e sair, como se o
homem tivesse conseguido ler seus pensamentos, uma voz terrível, rouca e
cadavérica, como se saída da boca de um defunto, falou calmamente, sem
que o homem sequer se virasse ou interrompesse o que estava fazendo: -
Sei que você está aí. Ouvi o barulho do carro chegando e além disso
você esqueceu de desligar o rádio. Está ouvindo? Gosto dessa música. Lá
fora, o rádio de seu carro continuava tocando música muito alta, só que
as guitarras de Jimmy Handrix agora foram substituídas pelo som dos The
Doors tocando People are Strange. Ele
começou a cantarolar a música e se virar bem devagar... Yara
gritou quando viu seu rosto. Qualquer um gritaria. Ele
era totalmente deformado, o rosto parecia mais uma máscara do dia das
Bruxas, com dentes podres e lábios arreganhados em um sorriso hediondo. Mas
o que a fez gritar não foi a sua deformidade, mas sim o que viu em seus
olhos: loucura e maldade. Seus olhos eram cruéis, e irradiavam um ódio
contido por tudo que fosse vivo. Sua boca estava suja de sangue e ela
notou com crescente horror que ele havia lambido o sangue que escorria do
corpo. Ele
veio em sua direção e ela ainda tentou correr, mas ele agarrou-a pelos
cabelos e puxou-a pra si, dando uma gargalhada terrível. Ela
tentou fugir golpeando e chutando a esmo, mas ele era muito forte, parecia
que tinha uma força sobrenatural. Tentou gritar, mas quando abriu a boca
levou uma pancada na cabeça e desmaiou. E
mesmo que ela tivesse conseguido gritar, quem a ouviria?
************** Quando
acordou, horas depois, estava amarrada na cadeira de sua mesa de jantar,
totalmente imobilizada e amordaçada. Sua cabeça não podia se movimentar
para nenhum lado, apenas seus olhos se mexiam e olhavam ao redor,
apavorados. E,
coisa estranha, seus cabelos estavam molhados e ela sentia um desconforto
na parte superior da cabeça, bem no centro. Tentou
soltar as mãos. Impossível. Estava
em uma posição bastante desconfortável e sem nenhuma chance de se mexer
ou se soltar. Pelo
pouco que podia ver, parecia que estava sozinha. Mas depois notou que não,
não estava sozinha. Sim, finalmente pode ter certeza de que era seu
marido quem estava na mesa. E agora o que ela via na sua frente era o que
restou dele, arrumado cuidadosamente em sua poltrona preferida. O
homem, ou seja lá o que era aquilo, retalhou seu marido inteiro, e depois
tentou colocar tudo no lugar novamente, só que de uma maneira bem
grotesca. A barriga estava toda aberta, expondo os órgãos internos, mas
ela pode notar que faltava boa parte deles. Os braços e parte das pernas
foram arrancados e pregados na parede. As orelhas e os olhos também foram
arrancados e jaziam espalhados pelo chão. Ele
colocou uma peruca loura na cabeça do cadáver, e vestiu uma saia que ela
não reconheceu como sua. Passou batom nos lábios, imitando um sorriso de
palhaço e nas suas mãos tinha um cartaz escrito: "Água mole em
pedra dura, tanto bate até que fura, o pior pecado é a Luxúria". O
desconforto na sua cabeça foi aos poucos ficando mais intenso. Depois de
muito tempo ela percebeu que eram gotas que caiam na sua cabeça. Talvez
algum cano tivesse estourado bem em cima dela. Depois ela notou que na
parte da cabeça em que caiam os pingos não havia cabelos. Isso era
certeza, porque ela podia sentir as gotas caindo diretamente sobre seu
couro cabeludo e incomodando muito. Horas
se passaram. Agora as gotas que caiam a todo o momento na sua cabeça
pareciam ser feitas de chumbo. Tentando
freneticamente se livrar das cordas, ela cortou os pulsos e se machucou
inutilmente, sem conseguir se mover sequer um milímetro. A
dor na cabeça estava ficando insuportável. Como ela não podia mexer a
cabeça, as gotas caiam continuamente e num ritmo bem calmo, sempre e
sempre no mesmo lugar... Ping,
ping, ping... "
Casal encontrado assassinado em casa. O
açougueiro Antônio Marcos Ravel e sua esposa Yara Felix Ravel foram
encontrados mortos depois de setenta e quatro dias, na sala de estar de
sua casa de veraneio. Os
corpos foram descobertos pelo vizinho, que veio passar as férias com a
família e notando o cheiro que saía da casa, resolveu chamar a polícia. O
Sr. Ravel foi encontrado na sala de estar, todo mutilado e retalhado,
usando uma peruca e uma saia, maquiado de forma grotesca. Em seu corpo não
restava uma gota de sangue. Sua
esposa estava amarrada na cadeira da mesa de jantar, imobilizada, o
assassino perfurou um cano bem acima da cabeça da vítima, fazendo com
que gotas de água que caiam continuamente no mesmo local em sua cabeça,
perfurassem seu crânio, levando a mesma a morte após vários dias de
sofrimento e agonia. Ambos
os corpos estavam em avançado estado de decomposição. O
casal não tinha inimigos e eram pessoas honestas e trabalhadoras. Nada
foi roubado e a polícia não tem pistas do assassino e nem do motivo de
um crime tão brutal."
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